segunda-feira, 2 de agosto de 2004

Ah, os banheiros...
(Elfo)

Entrando pela porta do apartamento 502 daquele prédio novo no bairro, encontramos, tomando seu café da manhã, nosso herói: seu Glicério. Herói não desses de colã, arma em punho e orçamentos milionários de Hollywood. Um herói saudosista, que sabe que não se faz mais nada como antigamente e que ouviu Silvio Santos ainda garoto na Excelsior. Mas agora não é momento para apresentações: nosso herói está de mau humor.

Velho birrento... vê se pode? Seu Glicério mastigava um pão com margarina enquanto tentava engolir a última que tivera de ouvir. A esposa chamara de birra de velho o mau humor que nosso amigo enfrentava nessa manhã de domingo.

Mas a birra de seu Glicério tinha motivo, e era o banheiro. Agorinha há pouco, enquanto escovava os dentes, quase tinha atravessado o box com o cotovelo.

Seu Glicério tinha saudades do tempo de moleque, quando os construtores sabiam dar a importância que um banheiro merece. Homem entendido das coisas, nosso amigo até dizia que poderia ensinar a esses engenheiros atuais como se faz o projeto de uma casa de família.

Banheiro bom tinha as paredes ladrilhadas até a metade da altura. E azulejos brancos, não essas imitações de caleidoscópios (e nessa hora seu Glicério se perguntou quando fora a última vez que vira um caleidoscópio, mas isso é outra história) que a gente vê hoje. Porque ninguém vai no banheiro para ficar olhando os desenhos dos azulejos. E porque os pedreiros nunca acertam os desenhos mesmo.

O banheiro tinha de ser confortável o suficiente para um homem poder passar agradavelmente toda a manhã de domingo lá dentro. Entre barbear-se, tomar uma ducha, ler o jornal, espalhar água de colônia e Polvilho Granado pelo corpo, além da brilhantina no cabelo, nem se via o tempo passar. Aliás, nem brilhantina existe mais.

E as simpáticas cortininhas de plástico? E o anti-derrapante emborrachado embaixo do chuveiro? A banheira de louça branca? Ou os vidros de bolinhas nas janelas? Nada mais. Mesmo porque os banheiros de antigamente tinham janelas que permitiam entrar claridade ou até mesmo dar uma olhada no quintal dos vizinhos da casa de trás. Hoje em dia banheiro tem um vitrozinho que dá para um vão no prédio que ninguém sabe ao certo onde fica.

Nos bons tempos, dizia, a pessoa fazia até exercício no banheiro. Era possível caminhar da pia até a banheira, passando pelo vaso e pelo bidê. Aliás, pensava nosso amigo, será que esses jovens sabem para que serve um bidê?

Ao tirar a toalha da mesa, uma sensação acabou com o sorriso satisfeito que a nostalgia trouxera: nosso herói precisava ir ao banheiro. E antes de fechar o trinco e bater o joelho na pia, seu Glicério tomou uma decisão: iria transformar o quarto de hóspedes em banheiro, que nem os de antigamente. Com cortininha de bolinhas amarelas e tudo.